Quando ser servo é melhor que ser chefe

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Iniciamos essa reflexão tomando por base em uma passagem bíblica que mescla agonia e paciência, esperança e aflição. Ela conta a história de Jairo, uma autoridade religiosa nos tempos de Jesus, um homem considerado com o guardião dos oráculos de Deus, pois a Palavra diz em Marcos 5:21 que ele era “um dos principais da sinagoga”.

               Jairo não era apenas um visitante assíduo ou talvez um grande contribuinte daquele lugar. Não, ele era um daqueles que comandavam o local, distribuía tarefas e fazia a leitura da Lei no sábado. Muitas pessoas não sabem que sinagoga é um local de estudos e orações do povo judeu até hoje. Pois bem, estamos falando de um homem que sendo criado nos preceitos mais rígidos da Torá, a Lei mosaica, naquela passagem bíblica viu-se em uma situação extremamente difícil. Sua filha estava doente e isso desencadeou uma serie de situações. 

               Vejamos o que diz a Palavra, em Marcos 5:21-24  24 E, passando Jesus outra vez num barco para o outro lado, ajuntou-se a ele uma grande multidão; e ele estava junto do mar. 22 E eis que chegou um dos principais da sinagoga, por nome Jairo, e, vendo-o, prostrou-se aos seus pés 23 e rogava-lhe muito, dizendo: Minha filha está moribunda; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva. 24 E foi com ele, e seguia-o uma grande multidão, que o apertava.

               Esse texto nos traz um gigantesco volume de informações e implicações que estão muito além da percepção pela simples leitura bíblica cotidiana. Temos aqui um homem procurado pelas pessoas para aconselhamentos e orações, um homem que interferia de maneira decisiva na vida dos cidadãos daquela cidade, um homem que detinha não somente conhecimento quanto rito e a liturgia, mas e principalmente, por ter autoridade. Afinal, ele podia olhar para uma pessoa e rotulá-la de “pecador” e isso se estabelecia. Um homem acostumado a bajulações e reverências que agora se via acuado diante de algo que ele não pode controlar, ou seja, a iminente morte de sua filhinha de 12 anos.
Seu pedido a Jesus é claro e direto: rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva. A morte era o fim esperado para a história daquela criança.

               Aqui começa a saga do “chefe que se transformou em servo”. Em vários momentos Jesus condenou a elite religiosa da época. Em várias situações Ele expôs e sentenciou a hipocrisia dos sacerdotes, escribas e fariseus. A expressão mais contundente dessa atitude está registrada em Mateus 23:1-39. Esse capítulo por inteiro se refere àqueles que usavam a religião como pedestal para a autopromoção e prestígio próprio. Vejamos nos versículos 1 a 4 como Jesus inicia seu discurso sobre essa questão: 1 Então, Jesus disse à multidão e aos seus discípulos: 2 “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. 3 Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. 4 Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los.”

               Com a abertura nesse tom, podemos esperar algo bem mais incisivo quanto ao caráter de tais grupos, a ponto de condenar categoricamente não somente suas doutrinas e principalmente suas ações com uma fala forte e embasada unicamente na Lei divina, chegando ao ponto de questionar sua existência e necessidade tal como pode ser dito no verso 15: 15 Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas, porque percorrem terra e mar para fazer um convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês.

               Jairo pertencia a essa elite. Não nos é possível afirmar se suas ações contemplavam as práticas que Jesus condenava abertamente. Provavelmente sim, por ser ele, Jairo, membro do grupo citado.

               Pois é (como se dizia antigamente), a única opção que agora tinha Jairo, um homem de autoridade e status, era se humilhar diante do único que ainda poderia lhe trazer alguma esperança. Agora as cadeiras de honra nas sinagogas e nas festas não representavam mais nada e o reconhecimento e presente recebidos já não tinham mais valor. Agora a vida de sua filha lhe compelia a se prostar diante do homem que execrava sua conduta.

               Será que Ele teria compaixão de mim? Talvez fosse essa a pergunta na mente de Jairo e ainda que receoso da resposta que poderia receber, se enche de coragem e determinação e vai até Jesus, contrariando tudo que ele mesmo vinha pregando há anos. Jairo se prosta diante de Jesus, atitude essa uma das mais condenáveis no judaísmo, pois judeu se prosta diante de Deus e de mais ninguém, expondo-se ao julgamento e condenação de seus companheiros fariseus que agora já não tem mais peso. Sua doutrina já não mais o aprisiona e ele é um homem livre, reconhecendo neste ato que Jesus é o filho de Deus.

              Jairo conseguiu romper todos os seus preconceitos, todos os medos. Estava diante de Jesus e assim expõe sua aflição e necessidade. Jesus, como de costume, não rejeitou um coração com fé e quebrantamento e para a alegria de Jairo, se dispôs a ir com ele a casa a sua casa.

               Certamente esse fato escandalizou toda a cidade. Afinal, por um lado tínhamos o chefe da sinagoga que se prostou diante do galileu e ainda o convida para sua casa. Por outro, tínhamos um rabi que condenava veementemente os fariseus, contudo se dirigiu para a casa de um deles. Qual a lógica possível? Que mensagem está contida nessa passagem? A mensagem aqui declarada é no sentido de que Jesus se reserva o direto de amar a quem quer que seja desde que haja reconhecimento de quem Ele é. Isso também está explicito em Marcos 2:17 quando algumas pessoas murmuravam entre si sobre aqueles com quem Jesus se relaciona. Ele disse: E Jesus, tendo ouvido isto, disse-lhes: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento”.

               É obvio que todos somos pecadores, todavia o que está dito nessa frase é que Ele veio para chamar aqueles que O reconhecem como Salvador e a si próprios como pecadores. Para aqueles que pensam de modo diferente Ele nada pode fazer.

               No transcurso do trajeto até a casa de Jairo, certamente cresceu a agonia do fariseu. A Bíblia diz que uma multidão os apertava. Imaginemo-nos saindo de um estádio de futebol lotado no meio da multidão com pouquíssimo controle do rumo onde tentamos ir. Acrescente o fato de sermos os protagonistas do grande evento e todos querem nos tocar de alguma forma. Pensem em um jogador famoso tentando sair do estádio junto como os torcedores. Essa era a situação de Jesus e Jairo.
Não bastasse o tumulto apareceu uma mulher que, tomada de fé, a exemplo de Jairo, se embrenhou na multidão com um único objetivo: tocar em Jesus. Nada poderia dissuadir aquela mulher da qual a Bíblia relata já ter gastado tudo que tinha em busca de cura e exaurido todas suas esperanças naturais, novamente a exemplo de Jairo, restando-lhe somente o filho de Deus.

               Pela Lei mosaica e em decorrência de sua doença, aquela mulher era considerada em estado de impureza. Em um ato de coragem, assim como ocorreu com Jairo, ela desafiou a tudo e a todos e tocou em Jesus, conseguindo sua cura.

               Em meio ao tumulto Jesus percebeu que algo havia acontecido e para desespero de Jairo, Jesus parou e indagou quem o havia tocado. Acreditamos que alguns até riram da pergunta dEle e talvez tenham surgido respostas como: Mestre, a cidade inteira te tocou! Mas Jesus estava se referindo a outra coisa. Ele sentiu quando a benção saiu dEle e isso nos mostra que Ele é uma fonte inesgotável de amor e nós podemos ter acesso a essa fonte pela fé. Mas, isso é mensagem para um outro texto.
Voltando a Jairo, pensamos em como estava seu coração porque quando Jesus pergunta quem O havia tocado, a mulher ainda demorou um pouco a revelar seu testemunho e Jairo com certeza pensou em sua filha em casa. Que pai sairia de casa com a filha em estado terminal? A resposta é: o pai que sabe onde está a solução, e ele já havia encontrado a solução. Só precisava levá-la até sua filha. Por sua mente certamente passou a ideia de que aquela mulher já estava curada e bem que podia deixar seu testemunho para depois. Afinal, já esperara 12 anos e que mal haveria em esperar mais uma hora?

               Para o desespero de Jairo, imagino, a Bíblia diz que já ao final da conversa entre Jesus e a mulher, chegou a triste notícia, conforme está em Marcos 5:35: 35 Estando ele ainda falando, chegaram alguns do principal da sinagoga, a quem disseram: “A tua filha está morta; para que enfadas mais o Mestre?”

               Meus irmãos, reflitamos sobre esse momento. Acreditamos que Jairo perde o chão, pois ele encontra a solução, mas não consegue levá-la até o problema, além de não estar presente nos últimos momentos de sua filhinha. Dores devastadoras como essa estão presentes ao nosso redor todos os dias. Pessoas frustradas, em situações que fogem a seu controle, mas, naquele momento Jairo foi acudido por uma frase que impactou sua vida dali em diante, uma frase que ecoa há mais de 2 mil anos, uma frase que abala as leis naturais, uma frase que muda destinos e corrige rotas. A frase que ele ouve está em Marcos 5:36: Não temas, crê somente.

               Implicitamente a mensagem é muito maior. É como se Jesus segurasse o braço de Jairo, olhasse diretamente para seu rosto e disseste: Eu vim até aqui com você e eu irei até fim com você. Acredite em mim porque eu não desistirei nunca de você.

               Irmãos, Jesus nos surpreende a cada passo seu. A Bíblia diz que quando eles chegaram em casa o alvoroço estava formado. Provavelmente todos os familiares, amigos e bajuladores estavam ali chorando a perda da criança. Jesus chegou surpreendendo aquele grupo, dizendo que a menina não estava morta, mas que apenas dormia. As pessoas riram dele. Nos diz a Palavra em Marcos 5: 39 E, entrando, disse-lhes: “Por que vos alvoroçais e chorais? A menina não está morta, mas dorme”. 40 E riam-se dele; porém ele, tendo-os feito sair, tomou consigo o pai e a mãe da menina e os que com ele estavam e entrou onde a menina estava deitada. 41 E, tomando a mão da menina, disse-lhe: “Talitá cumi”, que, traduzido, é: Menina, a ti te digo: levanta-te. 42 E logo a menina se levantou e andava, pois já tinha doze anos; e assombraram-se com grande espanto. 43 E mandou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e disse que lhe dessem de comer.
              
               Quem riu e duvidou foi posto para fora e não teve o privilégio de ver o milagre. Quem duvida de Jesus não vê milagres, só fica sabendo de milagres na vida de outros.

               A mensagem final de estudo é que Jesus tinha com Jairo o compromisso de ir até sua casa e curar a menina. E cumpriu, não importando o estado inicial e o agravamento da saúde da menina. Qual a diferença, para Jesus, em curar uma gripe ou um câncer? Quando Deus promete algo não importa que a situação mude. Não interessa. Se Deus prometeu prosperidade em alguma área de sua vida e a situação aparentemente piorou, no tempo de Deus, Ele vai cumprir o que prometeu.
Em um caso similar, quando a irmã de Lazaro expunha a Jesus a fé que tinham que Lazaro ressuscitaria ao final dos tempos, conforme nos relata a Palavra em João 11:40, Jesus lhes disse: Não falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?
               
               Quer ver e viver milagres em sua vida? Basta ter a fé e o quebrantamento de Jairo, basta abdicarmos das vaidades e autoconfiança, crer e confiar nEle assim como a mulher do fluxo de sangue.

               Jesus, é o autor e consumador de nossa fé.
              
               Graça e paz da parte Daquele que é Santo.
Jorge.